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Thalassa

O sal do seu corpo permanece, temperando a pele. Em toda a sua orla ecoa seu som retumbante; suave, profundo, relaxante e, ainda assim, aterrorizante. Como pode carregar a beleza e trazer o pânico?   Te vejo circulando em todos os lugares e, ainda assim, mal o conheço. Por que não me conta todos os seus segredos? Revela-se tanto e, ainda assim, se esconde.   Possui uma abundância de vida e, ao mesmo tempo, afoga na morte. Quantos seres estão sob sua proteção? Queria me abrigar dentro de ti, mas me contento com os poucos momentos de diversão.   Ó, grande e poderoso Poseidon! Cante para mim novamente sua canção. Cante enquanto estou em sua presença, cante antes que termine o verão.

A dança sob a neblina

 Na estrada chuvosa, você dançava sob a neblina, oscilava, correndo como a velocidade de um choque. Tudo era tão excitante: o sangue, pura adrenalina; um sacrifício perfeito para Moloque. Na estrada, brincava, indiferente aos demais; era tudo tão divertido que não se importava mais. Mesmo diante de jarros de vidro, consumar seu desejo era seu alívio. Pelo caminho, as luzes te acompanhavam, junto com o cimento misturado em betume. As linhas brancas e amarelas continuam, e a velocidade alucinante, como de costume. Agora, o cimento cobre o telhado do seu lar; seu nome é um dentre a multidão. Sua dança levou outros quatro cativos; eles assistem ao fim do espetáculo,  adormecidos em seus próprios jazigos.

Suas mãos estão imundas

Essas mãos sujas, cheias de terra, começando sua pequena guerra, perfurando a areia, procurando tesouros. Tesouros escondidos, esquecidos, como segredos não ditos.   Os grãos de terra misturados com água em tua roupa macia. Você certamente sente a alegria, enquanto quem vê pensa no árduo trabalho de transformar sua felicidade em cândida.   Você aí, pequena Maria Teresa, caçando recompensas na terra densa, enquanto observo sua proeza de criança, valsando e encardindo sua mais breve dança.

bolhas

Certa vez, estava andando, cambaleando na calçada. Aflita com as finanças mensais que chegavam como avalanche. Na rua, um carro parado no semáforo, e eu era a pessoa que estava com pressa, preocupada com o atraso. Há muito o que fazer quando o dia mal começa.   Na escola, olhava pela janela e deixava meus pensamentos vaguear, imaginando sair dali, curtir o dia, passear e namorar. Enquanto isso, estava ensinando gramática e matemática, observava os olhos atentos e sonolentos, olhos que aguardavam o sino tocar e a hora de sair.   Nos arredores da cidade, lá estava eu interrogando um larápio. Sei que a vida é injusta, mas é necessário cumprir regras e não pegar o caminho mais fácil. E eu tentei pegar o caminho mais fácil; queria saciar a fome. Me dei mal; aqui já sou conhecido de nome e sobrenome.   Enquanto isso, cá estou na cama de um hospital, pensando na vida, imaginando a morte, aguardando meu suspiro final. Do outro lado, em outra sala, estou chorando, confuso e curios...

Genese

 Hoje estava lembrando do tempo da ingenuidade, de quando o mundo era tão brilhante quanto glitter jogado em papéis intactos, naqueles desenhos, embora sem sentido, significativos.   Recordei de quando roubou isso de mim impiedosamente. De forma constante, feroz e bárbara. Como um animal caçando sua presa na selva, fazendo de mim uma carcaça em sua relva.   Tive medo e desespero, me senti tola e culpada. Como uma colher descartável utilizada. Manipulada, controlada e confeccionada para o seu deleite. Tão estúpida, ignorante, tão fácil de prever.   Hoje sei que é você o inconveniente, ilícito, espúrio. Você é quem deveria ser o sensato, maduro e responsável. Mas não passa de uma fera, involuntária, cruel e instável.   Agora não temo, não sinto culpa, sequer me perturba. Seus atos não me seguem, nem mesmo me definem. No patamar da minha vida, sua irrelevância nem mesmo me derruba.

O canto da clavina

Ferramenta humana, tanto sangue derrama, manchada de rubro, tal qual vinho tinto, queimando a garganta de quem a consome.   Ferro cálido, fumaça branca; branda. Inverso irônico para um final trágico, presente de guerra forjado na terra.   Fonte de um descanso forçado, etéreo. Qual é o mistério, se, com suas mãos imundas, o maculou?   Ó mármore esculpido pelo fogo, sua vista branca e alva. A clavina que imobilizou seu corpo não foi a mesma que destruiu minha alma?

Sísifo

Tic-tac, tic-tac, o relógio bate, bate. São cinco da manhã, e a soneca toca, toca. Corpo molhado, relógio tocando: tic, tic, tac...   Tic-tac, tic-tac, o relógio bate, bate. O tempo acelera no caminho para o abate; carro ligado, seta piscando: tic, tic, tac...   Tic-tac, tic-tac, o relógio ainda bate. Carro andando, carro parado, sinal vermelho, amarelado.   Tic-tac, tic-tac, o relógio faz start. O tempo demora para o proletário. Tic, tic, tac, acelerando o repasto.   Tic-tac, tic-tac, e a monotonia: tac, tac. O tempo ainda se enrola na longa teia da aranha, tic, tic, tac, tac, rondando essa vida profana.   Tic-tac, tic-tac, volta o relógio e bate. Verde, amarelo e vermelho acompanham, fazendo tic, fazendo tac.   Tic-tac, tic-tac, o crepúsculo é curto, o relógio retrocede: tic, tic, tac. E a soneca: toca, toca, toca...

6.205 dias

Foram seis mil duzentos e cinco dias, Dezessete outonos, dezessete primaveras, Dezessete verões e dezessete invernos, E bastou apenas quarenta e cinco dias.   Sim, quarenta e cinco sem um adeus, Nem tempo o suficiente para dois meses, E ainda penso por diversas vezes: Por que você morreu?   O tempo passa, a vida continua. Um dia, sequer ficará na memória, Se tornará apenas outra pessoa sem importância, Que ninguém mais guardará na lembrança.   Mas, para mim, resta a saudade dos dias que passamos E uma saudade ainda maior dos dias que não vieram. É muito engraçado, ao ponto de ser irônico, Mas sua ausência no meu casamento foi um verdadeiro incômodo.   Sinto raiva, tristeza, dormência e uma dor infinita. Queria saber se um dia aceitarei sua partida. Deveria existir um dia, uma data definida, Uma regra para o luto a ser estabelecida.   Mas não há. A morte não tem regras nem prazo. Tudo acontece do nada, ao acaso. Esse tormento infindável, essa angústia inevitável....

Bem-vindo à festa

A sala está cheia, entro e forço um sorriso. Uma batida com uma melodia repetitiva ecoa. Pego uma bebida, olho em volta e improviso. Ao meu redor, todos cantam, riem, brincam e dançam. E eu ali, estática, com uma máscara, observando tudo, fingindo uma alegria ilusória. Meu cérebro me diz que serão apenas algumas horas. Isso se torna um alívio: saber que virá o momento de glória. Procurando um lugar silencioso, encontro uma sala, mas lá há pessoas sentadas, conversando sobre quem é o mais mala. Então, de repente, chega a minha vez de fala, faço uma piada; se disser o que realmente penso, a diversão acaba. As músicas, as vozes, os sorrisos, uma fofoca interminável. Nada faz sentido, nada é interessante, tudo tão lamentável. Enquanto isso, continuo fazendo uma personagem impecável! Ser eu mesma em um ambiente assim seria imperdoável. A música de que gosto não é contagiante, a conversa de que gosto é entediante, manter minha essência, em uma festa, seria frustrante. Quando finalmente aquel...

Refugium

Esse é o meu mundo, esse é meu espaço. O verso de uma melodia vaga pela sala, em cima de uma mesa, o aroma de café exala. Em minha mão, uma caneta ou um pincel é quem tem a fala. Esse é o meu mundo, esse é meu espaço. Não há barulho nem conversas, apenas a imaginação. Parece quieto por fora, mas ouço uma bela canção, que toca a minha alma, transbordando vida e emoção. Esse é o meu mundo, esse é meu espaço. Não é triste, cansativo ou exaustivo, mas carrega riqueza. Para onde olho, enxergo a mais pura certeza de quão confortável é, dentro de si, encontrar a beleza. Esse é o meu mundo, esse é meu espaço. Não é como se o mundo não coubesse em seu interior. Mas tem tanto a explorar que o torna superior. É um espaço quieto, só, silencioso e cheio de valor. Sair desse espaço é doloroso. O som de cada murmúrio é pesaroso. Não que odeie, que não consiga ou que não seja primoroso, mas dentro do meu mundo, carrego um universo valioso. Talvez possa não aceitar ou não compreend...